(Hollywood)
Amoureuse
1972
De L’Autre Côté
De Mon Rêve

1972
Le Maudit
1974
Vancouver
1976
Hollywood
1977
7ème
1979
Laisse la Vivre
1981
Véronique Sanson
1985
Moi Le Venin
1988
Sans Regrets
1992
Indestructible
1988
D’un Papillon
À Une Étoile

1999
Longue Distance
2004
Plusieurs Lunes
2010

Quando saiu Hollywood, guardei a capa original, montei uma maquete da capa tal como eu tinha a imaginado (bastante influenciada, admito, pela capa sublime do não menos sublime álbum Madman Across The Water de Elton John...) e introduzi nela o vinil. O disco está, desde então, naquela capa.

Minha história com Véronique Sanson se encerrou, algumas décadas e alguns álbuns depois, com um lindo raio de sol. Em 2015, para meu aniversário, meus amigos Isabelle et François que sabiam da minha história e que, muito por acaso, conheciam a cantora pessoalmente, trouxeram para ela um exemplar do livro Les Années Américaines e contaram para ela a minha aventura com a sua mãe. Assim, no dia D, Isabelle e François me presentearam com o exemplar do livro, autografado por Véronique, com palavras pessoais e muito comoventes. Fiquei tão emocionado quanto feliz.

Hoje sobraram daquele período da minha vida algumas guaches azuis, um exemplar de Hollywood – que tenho a convicção de ser o único ser da planeta a possuir –, a música de Véronique Sanson, e um livro autografado.

E a lembrança carinhosa de uma senhora com a qual eu tomava de vez em quanto um chá durante as tardes parisienses em 1976, e que se revelou ser uma grande dama, tão humana quanto simpática.

Nos Estados-Unidos, desde o início dos anos sessenta, o surgimento das Joan Baezes, das Judy Collinses, e das Laura Nyros, o grande sucesso de Carole King com Tapestry, e, para terminar, os primeiros álbuns totalmente inovadores de Carly Simon e Joni Mitchell, da virada da década, tinham claramente indicado que as coisas estavam mudando. Mas na França, no início de 70, estávamos ainda com Sylvie Vartan, France Gall, e Sheila, que cantavam aquilo que outros escreviam para elas; e entre Juliette Greco, Barbara e Françoise Hardy e os ídolos do iê-iê-iê, não tinha nada.

 

Em 1972, como a maioria das pessoas da minha idade, fui pego em cheio por uma música diferente em forma de manifesto insolente: Besoin de personne (“Não precisei de ninguém”).
Com apenas um single, a França passou, sem se dar conta, da era iê-iê-iê à era pop-rock.

O álbum que veio em seguida confirmou a tentativa: a autora era loira, parecia frágil (digo bem: parecia), sua voz tinha um estranho vibrato impossível de esquecer, mas principalmente, principalmente, ela compunha.
Não lhe bastava cantar: ela escrevia suas letras e sua música.
Na época, ninguém fazia isso na França – exceto Françoise Hardy, num gênero mais “folk” do que “pop/rock”, e Barbara, um marco, por sua vez, da música francesa de tradição mais focada no texto, bastante diferente do rock‘n’roll ou da música pop.

Até que um dia, de repente, veio Véronique Sanson.

Foi essa particularidade que fez com que eu me interessasse, desde o início, por este artista.
Aquilo que ouvia naquele momento imediatamente me fascinou, e me parecia único, em virtude da qualidade e da originalidade das composições, da voz, do fraseado, dos textos: a recém-chegada foi a única a poder impor-se no meu toca-discos, ao lado dos Elton Johns, dos Cat Stevenses e dos Bowies – e, um pouco mais tarde, de Carly Simon e Joni Mitchell.

Como era o caso com estes autores, o que eu ouvia, eram a música e as palavras do intérprete, e não aquelas de outra pessoa. É claro que no que diz respeito ao Elton John, não tinha me escapado que era Bernie Taupin que escrevia as letras; mas, por um lado, os dois ingleses tinham um vínculo muito forte – como tinham tido Lennon e McCartney – e por outro, com toda a genialidade do Elton John em termos musicais, podia-se facilmente perdoá-lo por ser apenas o autor das músicas – ao final das contas, Gershwin e Chopin tampouco tinham testado seus talentos com as palavras!

Como as minhas pinturas tinham acabado de ser selecionadas por Elton John para serem usadas no âmbito da sua turnê de 74, eu estava determinado a contatar Véronique Sanson para criar a capa de um dos seus futuros álbuns. Não queria passar pela gravadora, tendo aprendido com minha experiência com Elton John que era melhor tratar diretamente com Deus do que com seus Santos.

Como acontece frequentemente, foi graças à pistas dadas pela imprensa que acabei encontrando o endereço de Véronique Sanson, ou pelo menos, o endereço das pessoas que eu imaginava serem as mais próximas dela, isto é, seus pais (sendo ela mesma inacessível, uma vez que tinha se tornada a pequena noiva da América, com sua partida para os Estados-Unidos para seguir seu marido Stephen Stills).

As indiscrições dos jornalistas, combinadas com dados que cruzei com as páginas das listas telefônicas, permitiram que descobrisse o prédio onde vivam o Senhor e a Senhora Sanson.

OK Magazine (French magazine of the Seventies)

Um dia, armado com minha coragem, e com minhas criações Elton John de baixo do braço, subi no elevador daquele prédio chique do XVIo arrondissement de Paris e toquei a campainha da porta do apartamento do quinto andar, que tinha me indicado a zeladora. Foi uma mulher quem abriu a porta.
Soube logo com que eu estava tratando: só podia ser a Senhora Sanson, de tanto que a semelhança  com a filha era surpreendente.

Vermelho como um tomate (já tive, naquele ponto, o meu batismo de fogo com minha estadia no portão de Elton John e a chegada de Tony King), expliquei para aquela senhora na minha frente o que eu estava fazendo ali; ela me olhava mais ou menos atônita, mas também um pouco divertida, percebi nitidamente.
Terminei lhe remetendo a documentação que tinha trazido referente ao meu trabalho (deixando cair a metade das folhas no chão no processo). A Sra. Sanson teve a gentileza de pegar aquelas coisas, e anotou meu telefone, dizendo que falaria da minha visita para sua filha.
Algum tempo depois, não tendo recebido nenhuma notícia, resolvi telefonar para a Sra. Sanson (que confirmou o telefone da família que eu tinha encontrado na lista telefônica). Ela teve a gentileza de oferecer que passasse novamente na sua casa.


Foi assim que começou toda uma série de conversas com a Sra. Sanson, das quais guardo boas recordações.
A mãe de Véronique Sanson fez absolutamente de tudo para que conseguisse produzir quadros para sua filha, e, mesmo que por fim não “deu certo”, lhe sou grato até hoje por seus esforços, sua extrema gentileza e a total atenção que ela deu à iniciativa de alguém que, para ela, não era nada mais, a final de contas, do que um desconhecido.

Ao longo de 1976, mais ou menos a cada dois meses em média, criei o hábito de visitar a Sra. Sanson pela tarde, durante uma ou duas horas, para mantê-la a par do andamento do meu trabalho. Ela me contou que o lançamento do próximo álbum da sua filha era previsto para o ano 1977.

Para me ajudar, a Sra. Sanson meu deu acesso a uma série de fotos fornecidas pela gravadora, que ela me entregou no final de um dos nossos encontros, num envelope azul, endereçada ao seu marido.

Embora eu perdi quase todos os documentos que nele estavam contidos, fiquei até hoje com o envelope e algumas daquelas fotos.

Quando eu chegava, a Sra. Sanson me levava geralmente para a cozinha, me mandava sentar na sua frente, e me oferecia chá ou café.
Ela me falava da sua filha, contava um monte de anedotas, vendo em mim uma plateia cativa, com os olhos cheios de estrelas – o que devia ser divertido para ela, e ao mesmo tempo emocionante, pois ela adorava a filha, com um amor absoluto, permeado de orgulho e de admiração.

Eu fazia perguntas, claro, e lembrou que quando me falava da vida da filha nos Estados-Unidos e do seu genro, ela falava de Stephen Hills como “o Americano”, e então, a expressão do seu rosto mudava e ela fechava a cara.
Ela não buscava esconder aquilo que ela e o marido achavam de Stills, e a partir daí, engatava em um relato das circunstâncias da saída abrupta da filha, do desespero da família, do Michel Berger e dos seus entes.


Certa vez, a Sra. Sanson me fez rir muito quando me contou que se havia alguma música no repertório da sua filha que nunca tinha gostado, era justamente Besoin de personne, porque aquilo que Veronique dizia naquela canção era insuportável para a mãe.

“Como pode a Veronique ter cantado coisas assim, em relação aos seus pais?”, indagava a Sra. Sanson, franzindo a testa e martelando  : “Você pode imaginar quando eu e o pai dela ouvimos aquilo pela primeira vez, o efeito que teve na gente – e chegamos até a falar para ela! Mas, em compensação, vamos falar do LP Vancouver – esse sim, é outra coisa. Adoramos!”.
Obviamente, me ergui em defesa de Besoin de personne – mesmo estando de acordo com aquilo que a Sra. Sanson tinha falado a respeito de Vancouver – e não pude deixar de sorrir ao escutar aquela mãe evocar as obras da filha que faziam vibrar centenas de milhares de fãs na França, e reprovar aquela canção, ainda sem discussão! Escutar a Sra. Sanson falar da sua filha era comovente, sempre foi.
Assim, guardo daqueles momentos passados junto com a Sra. Sanson uma lembrança tão doce quanto respeiosa. Ela me autorizou a tirar algumas fotos do seu cãozinho branco e do piano na sala de estar, onde seu esposo ensinava as filhas a tocar. Os smartphones e aquele hábito de hoje de tirar foto de tudo e qualquer coisa sem motivo particular ainda estavam nos seus primórdios tímidos na época - era em 1976 - e assim, nunca tive coragem de pedir para tirar uma foto da Sra. Sanson; fiz então um retrato dela ao sair de um dos nossos encontros, para guardar uma recordação visual dela.

April 2016
"Hollywood"
Folheto interior, verso, com letras das canções
"Hollywood"
Folheto interior, desdobrado, com letras das canções e pintura
"Hollywood"
Capa interior, desdobrada, com a lista de efectivos empregados
- Incluindo o folheto interior quatro páginas (recto, mostrando uma pintura)
"Hollywood"
Capa do álbum- - Cobertura dianteira
« Hollywood"
Capa do álbum - contracapa (verso)
"Hollywood"
Capa interior desdobrada (no folheto central anexado aqui)

Por volta do verão de 1976, tendo praticamente terminado as minhas pinturas, fui mostrar algumas delas à Sra. Sanson que, acredito eu, as apreciou o bastante para aceitar mostrá-las para Véronique. Acho que não cheguei a deixar os originais com ela; como a artista não estava em Paris, não teria servido para nada; mas me parece que tinha entregue à sua mãe pequenas reproduções para que ela pudesse encaminhá-las para Véronique Sanson. Mas não tenho mais certeza.

De qualquer forma, não obtivemos nenhuma reação, e a Sra. Sanson, quando eu ligava para ela ou passava para visitá-la, invariavelmente me explicava que sua filha levava uma vida de louca, que não tinha sequer um minuto para si, e que estava preparando seu álbum (que estava atrasando, já que só iria sair no outono de 1977).
Finalmente, durante uma visita da Véronique Sanson à França no final do verão de 1976 (acho), a Sra. Sanson me passou o número de telefone da sua filha na casa de campo (acho que na época ficava em Orgeval), para que pudesse conversar diretamente com ela. O que eu fiz; eu telefonava, caia num homem para quem eu explicava que estava ligando por indicação da Sra. Sanson; ele pedia para ligar mas tarde porque Véronique estava ocupada. Consegui falar com Véronique Sanson depois de várias ligações. Eu fiquei muito emocionado ao escutar do outro lado da linha alguém que tinha tanto me inspirado e que admirava tanto. Ela foi muito amigável, mas deixou claro que na verdade não tinha tido o tempo de olhar sequer um dos quadros, e me falou que sua mãe me manteria informado.

O tempo passou... e nada acontecia.

Finalmente, no outono de 1976, voltei a ver a Sra. Sanson, que me contou, constrangida, que sua filha era reticente, pois achava que nas minhas pinturas ela “parecia com a feiticeira da Branca de Neve” ... Retrospectivamente, acho graça daquelas palavras da mãe de Véronique Sanson, na época já achava a comparação evocativa! Já o veredito e seu impacto para meu projeto de capa de disco, achei menos divertidos.

Persisti e refiz uma ou duas pinturas, que mostrei à Sra. Sanson. Não tive mais notícias. Enviei para ela meus votos de ano novo no início de 77, e finalmente recebi uma correspondência do secretariado da Sra. Sanson.

Et soudain un télégramme vient m'annoncer
Que tout est dans le lac
Véronique Sanson – On M’attend Là-Bas – Album Le Maudit
(E, de repente, um telegrama vem me anunciar
Que foi tudo por água abaixo

Véronique Sanson – On M’attend Là-Bas – LP Le Maudit)

Pois é, tudo foi, de fato, por água abaixo. E a Sra. Sanson tinha demostrado mais uma vez toda a sua gentileza e sua atenção ao me manter informado, com palavras de apoio, mesmo quando as notícias não eram as que eu esperava.


O single Besoin De Personne
(Não Precisei De Ninguém) (1972)
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