David Bowie
1967
Space Oddity
1969
The Man Who
Sold The World
1970
Hunky Dory
1971
The Rise & Fall Of
Ziggy Stardust &
The Spiders From Mars
1972
Aladdin Sane
1973
Pin Ups
1974
Young Americans
1975
Station To Station
1976
Low
1977
"Heroes"
1977
Lodger
1979
Scary Monsters
(& Super Creeps)
1980
Let’s Dance
1383
Tonight
1984
Never Let Me Down
1987
Black Tie White Noise
1993
1. Outside
1995
Earthling
1997
"Hours… "
1999
Heathen
2002
Reality
2003
The Next Day
2013
Blackstar
2016
Diamond Dogs
1974

Existe sim vida em Marte.

.

David Bowie representa um marco criativo na minha vida, e um dos artistas que mais me cativou e me fascinou.

Mas muito estranhamente, e diferentemente de Elton John, Véronique Sanson e alguns outros, eu nunca sonhei em poder encontrar David Bowie “de verdade”.  

Talvez seja porque, ao contrário de um Elton John, que nunca precisou propor algo além do que si mesmo por meio da genialidade da sua música (isto é, apenas sua verdade humana complexa, encantadora e encarnada, sublimada por seus sentimentos, seu afeto, sua sensibilidade, uma realidade humana rica e fascinante, da qual se pode facilmente imaginar a existência por trás da fachada de purpurina e aquele extraordinário gênio musical, justamente), sempre senti que, no que diz respeito ao Bowie, as chances de poder encontrar o ser humano David Jones por trás do artista Bowie eram praticamente inexistentes - e com isto quero dizer um encontro no estrito contexto de um trabalho específico (como por exemplo, aquele de realizar obras inspiradas nos seus personagens), e não no âmbito de uma relação entre fã e artista.

De fato, o criador deZiggy Stardust, de Aladdin Sane, de Halloween Jack, de Thin White Duke encenou genialmente (a palavra é fraca) uma galeria de personagens sucessivos – biombos ideais que camuflavam seu personagem real – todos inventados, fabricados e às vezes emprestados dos universos desenvolvidos por outros, como, por exemplo, o mundo prematuramente excêntrico, venenoso e “decadente” do mímico Lindsay Kemp, os universos do Kabuki japonês, da “Philly soul” americana, de William S. Burroughs com seu sistema de escrita baseado em colagens e montagens aleatórias de palavras sem ligação...

Mas quem era o homem por trás daquelas metamorfoses maravilhosas em forma de espelho? Infelizmente, não é mais pertinente buscar encontrar uma resposta a esta pergunta, desde aquele funesto dia 10 de janeiro de 2016.

Nos meados dos anos 70, realizei algumas pinturas em guache cujo tema era David Bowie.
Foram circunstâncias específicas que me permitiram produzi-las: tinha recebido da RCA, gravadora de Bowie, um conjunto de documentações fotográficas durante uma estadia em Nova York no verão de 75.

Estava passando minhas férias em Stamford, Connecticut, na família da minha amiga americana Sue Rudman, e tinha conseguido marcar um encontro na RCA, no departamento de criação da gravadora, sediada na época em Manhattan, no número 1133 da Avenue of the Americas. Pude mostrar o que tinha feito para Elton John, descrevendo minhas intenções, e aquilo que meu interlocutor viu o convenceu suficientemente para me entregar um conjunto de fotos a partir das quais deveria poder me inspirar, para ver o que eu estaria capaz de fazer com elas.

Assim, aquelas fotos serviram de base para a maioria das obras.

Avenida das Americas, Nova York, próximo
ao número 1133, sede da RCA, em 1976.

Algumas fotos fornecidas pela RCA em 1975
afim que eu pudesse usá-las como base para minhas pinturas.

Em seguida, a RCA me manteve informado sobre o andamento das coisas, que por fim não deram em nada.

Talvez fosse porque Bowie, para quem a RCA me afirmava, por carta, que tinha entregado algumas reproduções das obras, não conseguia se ver naquelas pinturas.

De fato, certamente, a posteriori, eu me digo também que quando aquele trabalho lhe foi apresentado (se é que tenha sido realmente), a maioria das guaches que o compunham tinham sido produzidas em relação ao look do momento que o ex-Ziggy Stardust exibia entre 1974 e 1976, basicamente aquele visual que caracterizou a emergência de Young Americans depois do ensaio que foi David Live. Esse mesmo look evoluiria para aquele personagem frio e minimalista do Thin White Duke de Station to Station.

Período no qual o ex-extraterrestre Ziggy, momentaneamente transformado no novo Young American King of Plastic and Disposable Soul, deixou definitivamente suas sobrancelhas crescerem novamente, virando assim a página, enterrando de uma vez por todas o último estigma daquele período de hipercriatividade, onde as sobrancelhas raspadas e a arcada supraciliar brilhantes de gloss laranja ou magenta tinham amplamente contribuído para identificar o Bowie como tendo caído do planeta Marte...

 

Assim, a natureza de camaleão em mutação perpétua própria ao Bowie fez com que o visual do período Young Americans já fazia parte da história antiga nos meados de 1976: Bowie tinha começado sua nova muda de pele, muito longe dos ritmos “funky” animados e das sonoridades lisas, luxuosas, ricas e suaves de Young Americans, para nos dar as marteladas do pós-industrial e os sons rock, amplos e cavernosos de Station to Station,disco-transição que preparou Bowie para sua partida dos Estados-Unidos e sua volta para costas europeias, para o que iria se tornar sua famosa Trilogia de Berlim, com Low, « Heroes » e Lodger.

 

David Live
1974

Crítica de "Young Americans"
por Ian MacDonald
para o jornal New Musical Express.
15 de março de 1975.


Reportage sur l’enregistrement de "Young Americans"
aux Sigma Sound Studios de Philadelphie,
- Melody Maker du 12 octobre 1974.

O look Bowie, na época de "David Live"
e "Young Americans"
(turnê iniciada sob a bandeira
do "Diamond Dogs Tour" no Tower Theater de Filadélfia,
e renomeada "Philly Dogs" na sua segunda parte,
que dava um destaque especial para as músicas
que iriam compor "Young Americans").

Talvez isso explique a reação do artista ao meu trabalho, pelo menos em parte.
Pouco importa.

Na primavera de 1976, tendo compreendido que nunca nada iria vir daquele trabalho dedicado ao Bowie, produzi uma capa para o sucessor de Young Americans, aquele Station to Stationdesconcertante, cuja capa original, na época, eu detestava, pois a achava tão defasada em relação ao look desenvolvido por Young Americans, um crime que eu tinha que remediar... Hoje, continuo confuso com aquilo que fiz e com o absurdo da minha capa alternativa, sobretudo em relação à capa original, que era criativa, sóbria e elegante - o que sempre foi. Well, enfim, erro de juventude, e sorry David, nobody’s perfect - desculpa David, ninguém é perfeito.
Em minha defesa, devo especificar que eu era incomodado pelo meu amor incondicional de Young Americans. Não entendia por que Bowie abandonara tão rapidamente aquilo que para mim representava uma apoteose musical e visual. No entanto, como todo mundo, eu lembrava que Bowie tinha “eliminado” Ziggy Stardust e seus pares Aladdin Sane e Halloween Jackem favor daquele “dândi” esfomeado, afetado, imprevisível e ultrassofisticado que Young Americans encarnava tão voluptuosamente; mas na época, não tinha entendido que Bowie, era em sua essência, um “serial killer” autoprogramado, tanto por filosofia artística quanto por temperamento, e que cada nova encarnação era condenada no mesmo dia que nascia, quando o autor passava radicalmente para outra coisa, álbum após álbum.

Foi só depois que eu entendi que Bowie agia metodicamente, sistematicamente, tendo o destino reservado ao seu magnífico palhaço lunar de Scary Monsters & Super Freaks (Super Creeps) (o pó retorna ao pó... de estrelas? Seja como for, uma das incontestáveis obras-primas de Bowie) me aberto os olhos, aquele personagem que sofreu as consequências da “normalização” da produção dos anos 80, para acabar nos LPs decepcionantes que já conhecemos. Scary Monsters (Monstros Terríveis), último álbum realmente grande de Bowie, anunciava claramente pelo seu título seus sucessores...

Let’s Dance: supermercado musical barulhento e vazio, uma prostituição bronzeada pelos raios UV e descolorida, onde David Bowie vira as costas para tudo aquilo que fazia a raridade e a unicidade de Bowie o artista, assaltando o banco das paradas de sucesso a todo custo - inclusive aquele da sua integridade; Tonight  que, ao contrário do que diz a lenda, é um álbum amplamente mais aceitável do que Let’s Dance devido à presencia do excelente Loving The Alien e de Blue Jean; Never Let Me Down, impossível de escutar, do começo ao fim, e que, pelo seu título (Nunca me decepcione) deixa adivinhar os receios legítimos de Bowie em relação à erosão da paciência do seu público, isto é – olha, sorry David, mas esse álbum foi a gota d’água, então tchau! ...

Graças a Deus, Bowie provou com seus álbuns dos anos 90 (Black Tie, White Noise, digno sucessor de Young Americans, ou ainda 1. Outside, “bowiano” e muito venéreo, e aqueles dos anos 2000 com o indispensável e ambicioso Heathen, o energético e magistral Reality, e o último, radical e icônico Blackstar) que aqueles três paradigmas de vacuidade acima citados foram apenas acidentes de percurso.

Voltando para 1976, e tendo tirado a lição com o impasse no qual estava em relação à minha produção “bowiana”, resolvi encarar um último combate: com ajuda dos meus amigos Claire, Françoise e Pierre-Marie, eu consegui montar uma miniexposição com o apoio da filial francesa de RCA numa pequena galeria comercial nos Champs-Élysées.

As paredes eram revestidas de papel de parede prateado com padrão geométrico do tipo que só tinha nos anos 70, as guaches faziam o que podiam naquele fundo psicodélico, digno do estilista Paco Rabanne ... e é sempre com emoção e com sorriso que revejo as fotos daquela pequena exposição.

Nesta exposição, figurava uma pintura em guache
representando Elton John e Bowie...
O encontro impossível, quando se recorda
o antagonismo feroz (para não dizer a detestação)
entre as duas estrelas de rock...

A partir disso, cheguei à conclusão que o Dorian Gray não tinha necessariamente a determinação de confrontar a própria imagem passada, aquela do tempo da sua magnificência.

É doloroso para cada ser humano constatar a devastação do tempo, aquele inimigo indiferente cujo relógio sem piedade ritma a nossa trajetória no planeta com aquele tique taque frio e metódico que a cada dia nos aproxima um pouco mais da saída inexorável em direção da qual avançamos todos.

Imagino que o crepúsculo que está se apresentando deve ser ainda mais difícil de confrontar para quem foi tão jovem, tão extravagante, tão exuberante, tão fascinante, e tão acidulado. Hoje, ainda tenho sentimentos mistos em relação àqueles discos e matérias autografados, que viraram, de alguma forma, objetos de culto, detonados pelo ídolo.

Em 2003, na ocasião da filmagem em Nova York de uma publicidade na qual participava o Bowie, meu parceiro, que dirigia a equipe da agência responsável pôde chegar perto do músico e lhe apresentar minha versão da capa de Young Americans (verdadeiro tesouro para mim, edição original em papelão, e plastificada por mim para que pudesse ficar protegida e conservada da melhor forma possível!), assim como recortes de jornais ligados àquele disco, para que o Bowie pudesse autografá-los para mim.


Quando a capa e os artigos me foram devolvidos, fiquei espantado de constatar que Bowie tinha totalmente coberto e rabiscado por cima do seu rosto com uma rubrica que parecia quase raivosa. Ele teve total liberdade de proceder diferentemente - de assinar na lateral, onde queria - mas não, o que tinha feito, rabiscando e riscando o próprio rosto, tinha feito conscientemente.

Então,
obrigado,
David Bowie,
por todas aquelas obras deslumbrantes dos anos 70,
de Hunky Dory a Ziggy Pó de Estrelas,
do Rapaz Maluco aos Cães de Diamante,
e em particular, obrigado pelo funk chique
e “plástico” dos Jovens Americanos,
obrigado por sua genialidade
e por sua capacidade tão particular em nos demostrar até o final que sim,
Exista vida em Marte,
e que assim, você continua vivo,
Lá em cima, onde Alguém gosta de você
- pelo menos, é o que desejamos para você,
de coração.

"Heathen". Bowie, o iconoclasta -e uma das suas maiores composições.

Mas quando se vê a capa do LP Heathen, lançado mais ou menos na mesma época em que o falecido Ziggy massacrou com tinta preta meu exemplar de Young Americans e minhas “relíquias” da imprensa, dá para entender melhor o estado de espírito de Bowie no que diz respeito à iconografia - inclusive a sua – como testemunha das coisas que foram.
Durante toda a sua vide, a escolha dele foi de se reinventar, de surpreender, de transgredir, de des-estruturar, de inverter, de modificar, de (se) destruir para poder renascer melhor das suas cinzas.

Nesse sentido, seu gesto em relação a minha capa de Young Americans parece coerente, e, assim, quase simpático e comovente. O Não-tão-jovem-assim-americano, com sua rubrica enfurecida, tinha projetado sua luz escura naquilo que era o álbum da sua trajetória que sempre foi o meu preferido: o que mais poderia eu ter legitimamente esperado de uma Estrela Negra?

Abril 2016
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