FREE MONEY

 

 

Todas as noites antes de dormir
Encontre um bilhete de loteria premiado
Colha as pérolas do fundo do mar
Venda-as e compre todas as coisas que você precisar.

Free Money
Patti Smith – Horses

 

Dois errantes partem pelo mundo afora.
Há tanto mundo para ver.
Estamos todos em busca do mesmo fim do arco-íris.
Esperando na curva,
meu amigo Huckleberry,
o rio da Lua e eu.

(Moon River- Andy Williams & Henry Mancini / Breakfast at Tiffany’s- Diamants sur canapés)

 

 

Enquanto eu considerava o que pintar sobre Free Money (uma das minhas faixas favoritas em Horses), eu logo pensei nas semelhanças, e, ao mesmo tempo, diferenças (uma alquimia contraditória, como fogo e gelo, que eu acho muito interessante e que motivou a minha pintura), entre o caráter de duas jovens mulheres, em aparência totalmente opostas, mas ligadas entre si pela necessidade de uma vida melhor – entre outras coisas.

Cada uma dessas duas mulheres simboliza uma época. Uma caracterizada pela imprudência e pelo otimismo, e a outra, pelas causas, lutas e protestos.
A jovem Patti Smith do início da década de 1970, uma espécie de punk avant-la-lettre, com seu look andrógino, como um Gavroche de Nova York, errou pelas ruas da cidade, sem um tostão no bolso, com pouco ou quase nada para comer, tendo chegado de Nova Jersey, onde sua família morava na época.
Chegando em Nova York em 1967, ela tentou se distanciar o máximo possível do futuro planejado e previsível que a sua vida suburbana lhe havia destinado, estando pronta para fazer qualquer coisa para tomar o caminho da arte, da poesia e da música (com o sucesso que nós hoje conhecemos).

Ao mesmo tempo, com o desejo assumido e urgente de encontrar dinheiro o suficiente para viver, depois dos seus sofridos primeiros anos em Nova York. Anos mais tarde, ela se lembraria daquele período, com generoso bom humor: Uma vez, estando a seu lado (William Burroughs), eu lhe perguntei: “Ao que devo aspirar?”. Ele refletiu um pouco, e me disse: “Minha querida, um cartão American Express Gold seria bom”. (Brain Pickings - Patti Smith’s advice on life, de Maria Popova).

Holly Golightly (interpretada por Audrey Hepburn), a heroína de Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's), é uma jovem de aparência sofisticada, no início dos anos 60, que, descaradamente, tem um primeiro e único objetivo: ficar rica e ter sucesso na alta sociedade. Contudo, ela leva uma vida boêmia, descompromissada, como o gato de rua que ela adotou e com a qual se identifica fortemente.

Holly chega em Nova York, abandonando o Texas, tentando se afastar o máximo possível da sua infância tingida pela pobreza, de um casamento imaturo e do futuro medíocre e monótono que sua adolescência provinciana lhe prometia.
Em Nova York, ela se deleita em sofás feitos de banheiras, adornados com almofadas de cores berrantes; ela devaneia diante da vitrine de diamantes da Tiffany (e os dólares que eles representam), pronta para qualquer negócio com homens, apenas para obter as joias - e o dinheiro. Essas duas errantes, tomando a estrada da aventura na vida, têm algo mais em comum.

A existência precária, os tempos difíceis, mas também os inacreditáveis encontros oferecidos por Nova York à jovem Patti Smith não a distanciaram do casulo da sua família. O seu coração ficou em Nova Jersey, e duas das suas composições são inspiradas por suas irmãs Linda e Kimberley (Redondo Beach e Kimberley).
Holly Golightly nunca recusa champanhe ou aventuras com homens de quem, ela espera, possa obter o conforto financeiro que ela procura desesperadamente.

Na verdade, ela só pensa no seu irmão mais novo, Fred – a única pessoa com quem ela se preocupa, a sua única família, a sua única raiz, que deixou o Texas por causa do exército –, aguardando notícias dele todos os dias.
O que mais me interessou nesse encontro entre Two drifters off to see the world (Moon River – letra de Andy Williams, música de Henry Mancini – trilha sonora de Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de Luxo)) é a diferença que separa duas épocas distintas, nas quais elas nasceram, e nas quais elas vão tentar escapar do seu destino, construindo um novo amanhã, e, claro, as diferenças de aparência física e postura diante da vida. E, obviamente, a considerável mudança ocorrida entre aquelas duas épocas.

O que pode haver de mais distante do maravilhoso romance de Moon River do que o áspero, onírico, existencial e emocionante Free Money de Patti Smith?

Todo um mundo que separa a virada da década de 1950-60 daquela de 1960-70.

Um mundo que mudou radicalmente naqueles dez anos.

Cujos valores se partiram, quando não foram inteiramente invertidos.
À primeira vista, podemos dizer que Holly Golightly é o oposto de Patti Smith, sendo tão refinada, sedutora, desmiolada, superficial e glamorosa quanto Patti Smith é cerebral, resistente, andrógina, austera e radical.

Mas somente à primeira vista.

Na verdade, foi apenas o verniz que o tempo passa sobre as pessoas que mudou. Entre o início da década de 1960 e o da de 1970, a vida se tornou mais difícil; aconteceu a guerra do Vietnã, a desilusão, e os jovens que queriam mais se rebelaram. A violência tornou-se banal. As mulheres jovens já não dependiam de homens para ter "dinheiro fácil" porque elas se emanciparam, e estavam prontas para lutar para alcançar os seus objetivos. Assim, Patti Smith escapou do ar cinzento de New Jersey para construir os seus próprios códigos de beleza e feminilidade, que a sublime fotografia de Robert Mapplethorpe, usada na capa de Horses, tão bem soube capturar.

Não tenho certeza de que Holly Golightly, a quem a maravilhosa e única Audrey Hepburn emprestou sua radiante e apimentada beleza, e seu coque de fios dourados, seja, realmente, mais “bela” do que a Patti Smith de Horses aos vinte e tantos anos, com a sua ossadura fina como porcelana, sua pele diáfana, seu olhar cinza-dourado, azul como a brasa, seu corpo elástico e alongado como uma lâmina de aço, e sua crina negra, selvagem, que pente algum ousaria tentar pentear.

O pano de fundo, a essência permanece a mesma: a fragilidade do desenraizamento, a recusa dos códigos e regras, a busca do amor, e a irritante, ardente, obsessiva questão vital do quotidiano: como arrumar uma grana !

Free Money? Vamos lá, garotas errantes, vocês terão apenas
que quebrar a janela, e os diamantes, dólares e pérolas
que vocês nunca poderiam ter, mas sempre
desejaram, estarão lá, aguardando,
esperando para serem apanhados,
brilhando como um rio ao luar.

 

 

Free
Money