par Jacques Benoit
BIRDLAND

 

 

 

 

Igualmente, Privilege (Set Me Free) do álbum Easter : "The Lord is my shepherd, I shall not want, He maketh me to lie down In green pastures He leadeth me beside the still waters He restoreth my soul He leadeth me through the path of righteousness for His name’s sake – O Senhor é meu pastor e nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do Seu nome".

Ou mesmo de Aint It Strange, do álbum Radio Ethiopia de 1976 "Do you go to the temple tonight? Oh no, I don’t think so. Do you not go to the palace of answers with me Marie? Oh no, I don’t think so - Irás ao templo hoje à noite? Ah não, acho que não. Não irás ao palácio das respostas comigo, Maria? Ah não, acho que não".

Sua corrida através dos campos, na sua busca pelo pai, o leva à idade adulta, subindo aos céus para reencontrar a figura tutelar ressuscitada, no “filme” no qual se transformou Birdland por meio desses quadros.

I am helium raven and this movie is mine.
Sou um corvo de hélio, e este filme me pertence.

Patti Smith - Birdland

Com esta frase de Birdland, Patti Smith está se referindo, aparentemente, a certos trechos do livro A Book of Dreams (o “filme” – movie – que menciona Reich no seu livro é, na verdade, um desenho animado – cartoon –, mas pode igualmente referir-se por extensão ao filme que o cineasta Dušan Makavejev fez sobre Wilhelm Reich em 1971). O verso foi também determinante na minha abordagem associativa entre a obra de Hitchcock e aquela de Patti Smith. This movie is mine - Este filme é meu.

O cinema encontra a música, que encontra a pintura.

No quadro final We like Birdland, quis voluntariamente evitar representar a grande nave espacial preta mencionada por Patti Smith. Eu considerava que a estética “Roswell”, tradicionalmente dada aos discos voadores (máquinas, aliás, que me fascinam, e sobre as quais possuo uma pletora de livros e filmes), não correspondia aos ambientes tão particulares da criação da poetisa.

Quis também evitar o clichê dos pequenos seres cinzas (os “grays” da mitologia dos óvnis) e aquele dos “ovos fritos” metálicos voadores, mesmo que pretos e enormes. Foi então que me lembrei da representação singular dos ETs que Stanley Kubrick tinha proposto na sua obra-prima 2001- Uma Odisseia no Espaço (2001 - A Space Odyssey). Kubrick tinha optado por uma encarnação simbólica: sete misteriosos cristais tetraédricos...

Conforme Patti Smith confidenciou à revista Rolling Stone em 2014: “Abandonei a religião organizada aos 12 ou 13 anos, pois recebi uma criação de Testemunha de Jeová. Tenho uma considerável formação bíblica; estudei bastante a Bíblia quando era jovem e continuo hoje, é certo que o faço num espírito independente de qualquer religião, mas não deixo de continuar a estudá-la”.

Assim, quando Patti Smith improvisou Birdland no estúdio nova-iorquino Electric Ladyland de Jimi Hendrix, parecia que estava cantando a Ascensão de um Cristo cósmico em direção da nave espacial preta que Peter Reich acreditava ter visto: The son, the sign, the cross, “O Filho, o signo, a cruz” (Birdland).

Uma metáfora que marcou como uma epifania a gestação dos quadros de Birdland.

A segunda razão tem a ver com a figura carismática de Wilhelm Reich. O simbolismo do pai ausente - pois falecido - me parecia fundamental, tendo Peter Reich, assim como Mitch Brenner, cada um perdido o pai, justamente em épocas onde as nossas sociedades já estavam livres do Pai fundador, ao proclamar a morte de Deus.

Foi assim que me dei conta que o filme Os Pássaros (1963) tinha nascido no meio da triunfante época moderna, antes das crises petrolíferas dos anos 70 anunciarem o fim da hora do recreio. Aquela época de otimismo ingênuo e de racionalidade conquistadora inaugurada, entre outros, por Nietzsche, intoxicada pelos avanços científicos que possibilitariam que o homem pisasse na lua, tinha decretado que não precisava mais de Deus, e a partir daí questionava Sua morte com a famosa capa da revista nova-iorquina Time Magazine de 8 de abril de 1966 (Is God dead? - Deus está morto?).

Havendo notado alguns anos depois que o cadáver ainda tremia, a revista ofereceu uma resposta na forma, novamente, de uma pergunta na edição do dia 26 de dezembro de 1969 (Is God coming back to life?  – Deus está voltando à vida?).

A agitada década de 70 trouxe a resposta. Aqueles anos de grande mudança nos valores e nas tradições, que abriram o caminho para a desintegração da esperança moderna, marcaram um regresso contundente da força religiosa (com o advento da teocracia totalitária islâmica no Irã). Eles também testemunharam a eclosão da carreira de uma certa Patti Smith, com o lançamento de Horses em 1975. É comumente - e com razão - reconhecido que Smith foi precursora do Punk rock - mas se poderia também atribuir à poetisa nova-iorquina a invenção do Bible rock - o rock bíblico.

Com o quebra-cabeça finalmente completado, o pequeno Peter Reich tinha apenas de correr em direção ao pai, de baixo das estrelas, nos campos azulados da noite. Pareceu-me oportuno, na construção de espelhos e correspondências entre Birdland e Os Pássaros, que Peter Reich, o menino evocado por Patti Smith, passasse o bastão nos meus quadros para outro órfão, o Mitch Brenner do filme.