par Jacques Benoit
BIRDLAND

 

 

 

 

Não podemos esquecer, entre estas personificações da mulher torturada evocada por Patti Smith, da amante deixada de lado, a morena Annie Hayworth (interpretada por Susan Pleshette), crucificada pelo abandono do homem amado e que acaba pagando com a própria vida aquele amor rejeitado.

E por fim, a mãe, Lydia Brenner, personagem-chave, assim como todas as mães nos filmes de Hitchcock, neurótica diante da própria incapacidade em assumir seu papel, se refugia no conforto mental e afetivo da substituição incestuosa do esposo falecido pelo filho.

O grupo de mulheres que cerca Mitch Brenner se torna assim a alegoria daquela mulher torturada mencionada por Patti Smith.

No papel funesto que Hitchcock lhe dá no filme, é a mulher quem traz os pássaros, como a desgraça descendo ao mundo. A mulher que encontrará sua redenção na ascensão do Filho do Homem ao Céu, para o firmamento de Birdland

vividos por adultos, e inventor das terapias sexuais que promoviam a liberação do ser pelo orgasmo.
Mais tarde, suas diversas teorias e práticas terapêuticas o fizeram passar, nos olhos da América puritana da época – a América do “Código Hays” e das proibições sexuais – por um pornógrafo, e levaram a sua prisão.

Comunista de primeira hora e discípulo de Freud (até a inevitável ruptura), Wilhelm Reich fugiu da Alemanha nazista para os Estados-Unidos, convencido que tinha conseguido identificar a manifestação da Energia Universal com o que ele chamava de Orgone e seu correlato maléfico, DOR (Deadly Orgone Radiation, Radiação Orgonal Fatal). Pesquisador “faz-tudo”, Wilhelm Reich afirmava ter descoberto uma forma de provocar chuvas voluntariamente com seu Cloudbuster, máquina estranha que tinha construído (e que lembrava o cruzamento improvável entre um canhão e um órgão), com a qual bombardeava as nuvens para provocar chuva. Apaixonado por discos voadores, que chamava junto com o filho e na linguagem codificada deles, de “EAs” (“E” de energia e “A” de alpha? NdT), Reich sustentava que os Estados-Unidos tinham se tornado uma ditadura estatista que escondia da população a verdade sobre os óvnis.

Tal intrusão por um psicanalista na dupla Birdland / Os Pássaros – personificado por aquele que faz o papel fundamental do Pai, do Demiurgo, isto é, Wilhelm Reich – encontra eco certo na fascinação de Hitchcock pela psicanálise. As andanças e os desvios mentais com os quais aquela disciplina visa lidar representam um terreno fértil para muitas das obras de Alfred Hitchcock, como uma espécie de fio invisível que as ligam, conforme o mostra o filme  Os Pássaros, claro, mas também Quando Fala o Coração (Spellbound), Psicose (Psycho), Rebecca, A Mulher Inesquecível (Rebecca), Pacto Sinistro (Strangers on a Train), Frenesi (Frenzy), Um Corpo Que Cai (Vertigo), e em particular o ápice que foi o tão criticado mas contudo insuperável Marnie - Confissões de uma ladra (Marnie).

A dimensão psicanalítica foi, portanto, essencial na minha interpretação de Birdland.

A simbólica espiritual, e até a simbólica religiosa, foram igualmente fundamentais. Há dois motivos para isto.

Primeiramente, não se pode abordar a obra de Patti Smith sem levantar esta questão, que transcende o conjunto da sua obra. Nela, o interesse da cantora pelo universo bíblico e cristão é recorrente, indo muito além da mítica introdução de Gloria (que, na realidade, é um excerto do seu poema Oath (Juramento), de 1970. Na abertura da música, Smith declara sua liberdade e sua responsabilidade de artista livre, ao evocar um Cristo que morreu para expiar os pecados de todos os homens, mas certamente não os dela, que ela mesma pretende assumir.

Lembremo-nos da lindíssima foto de um vitral com uma cruz , que ilustra o encarte do álbum Peace and Noise; ou ainda (como pequena amostra, já que há tantos exemplos nesse sentido) das composições Wave, Easter, Dancing Barefoot, Lo and Beholden, Jubilee, para citar apenas algumas...

The son, the sign, the cross
Like the shape of a tortured woman, the true shape of a tortured woman
O filho, o signo, a cruz
Como a forma da mulher torturada, a verdadeira forma da mulher torturada.

Patti Smith - Birdland

Na obra de Reich, os pássaros são igualmente maléficos, pois são voluntariamente enganosos: na mente do menino Peter, a atração pelos pássaros, que confundiu com a nave espacial do pai, o deixa cruelmente ferido; ele não consegue reencontrar seu pai - a única coisa que importava para ele neste mundo, que lhe fazia viver.

Na saga de Patti Smith, a saída é diferente: Peeps (apelido dado pelo Wilhelm Reich ao filho) alcança o pai – “daddy” – e vai com ele no disco voador, virando, como ele, um extraterrestre, aquele extraterrestre mencionado na composição, extraterrestre que hoje a noite é tão diferente (“very different tonight”), não é humano (“not human”).

Sendo o meu foco Birdland, escolhi o desfecho imaginado por Patti Smith, privilegiando assim o sonho e uma forma de surrealismo, em vez da volta à realidade descrita por Peter Reich.

No que diz respeito às conexões que fui descobrindo e que me inspiraram esta série para Birdland, fiquei surpreso de constatar que Peter Reich, órfão de Wilhelm Reich, era parecido com Mitch Brenner do filme, órfão, por sua vez, de Frank Brenner.

No filme Os Pássaros, Frank Brenner é o patriarca nebuloso, o deus familiar falecido, mas também venerado, cuja morte se faz cruelmente sentir no seio do núcleo familiar. Figura omnipresente do pater familias que vigia e julga por meio de um único retrato, pintura dele pendurada na parede da casa da granja de Bodega Bay, ele é um ícone sem olhar, estático, ubíquo, que vê tudo, mas não se manifesta. Sua esposa constantemente se refere ao conforto que providenciava para a família, comparando a exemplaridade do marido falecido com a insuficiência do filho vivo.

A importância do pai ausente, conjugada com os significados ocultos da composição de Patti Smith e dos dois personagens imaginados por Evan Hunter, roteirista escolhido por Hitchcock para escrever Os Pássaros a partir do conto do mesmo nome da Daphne du Maurier, remeteu a outro denominador comum entre a obra de Smith inspirada no livro de Reich e no filme de Hitchcock: o denominador da psicanálise.

Conforme já vimos, Birdland foi diretamente inspirado no livro A Book of Dreams, obra de Peter Reich que relata a infância tumultuada do autor ao lado do seu pai amado, Wilhelm Reich.

Wilhelm Reich, que sofreu um ataque cardíaco fatal durante uma estadia numa prisão americana em 1957, foi um psicanalista polêmico, pioneiro nas pesquisas sobre o papel do sexo nos traumas