Peter Reich
Autor em 1973 de "A Book of Dreams"
par Jacques Benoit
BIRDLAND

 

Birdland

 

 

 

Tudo o que vemos ou acreditamos que vemos é apenas um sonho dentro de outro sonho.

Um Sonho Dentro De Um Sonho / A Dream Within A Dream”
Edgar Allan Poe

Quando Horses foi lançado em 1975, foi um choque tremendo para mim, assim como para muitos da minha geração. Uma composição em particular, naquela obra-prima de disco, me enfeitiçou. Birdland.
Enquanto a música, a voz e a grande performance de Patti Smith tinham imediatamente me levado no seu vendaval, demoraria muito até que eu compreendesse o verdadeiro sentido da terceira faixa de Horses.
Na época, meu nível de inglês era básico e a letra da música não constava no encarte do disco. As únicas dicas sobre o significado de Birdland eram seu título e os riffs angustiantes e mágicos de Lenny Kaye que lembravam o grasno agudo do pássaro.

Tive que me contentar com isso.

Assim, ao longo dos anos seguintes, o poema cantado de Patti Smith guardou todo seu mistério.

Conforme ela mesma explicava na imprensa sobre aquela faixa (The Observer, 2005): A música foi inspirada em “A Book of Dreams” (“Um Livro de Sonhos”), memórias de Peter Reich, filho do psicanalista radical Wilhelm Reich.
No livro há uma parte onde Peter descreve uma festa de aniversário que ocorreu pouco tempo após a morte do pai. Em algum momento, Peter dá uma saída, e pensa ver uma massa de discos voadores ao longe. Ele fica convencido que seu pai estava descendo do céu para buscá-lo e levá-lo a bordo de uma das naves espaciais. Aquilo que ele achava ser um esquadrão de óvnis era na verdade uma revoada de corvos pretos. Aquela história sempre me atormentou, e quando fomos gravar "Birdland", que foi totalmente improvisada, ela ressurgiu e tomou conta da composição, a música foi andando naquela direção.

Nos últimos meses, quando comecei a trabalhar em Birdland, minhas pesquisas me levaram de volta ao poema original de Patti Smith para aprofundar minha análise, claro, mas também me conduziram ao livro de Peter Reich, A Book of Dreams, que não conhecia e que li com atenção.

Então tudo passou a ficar claro para mim, e as peças do quebra-cabeça que outrora era puramente intuitivo começaram a se encaixar concretamente diante dos meus olhos, as correspondências entre Birdland e Os Pássaros encontrando amparo em vários trechos do documento original de Peter Reich, e nas criações de Smith e de Hitchcock.

A associação intuitiva original dependia de três parâmetros:
A violência sobrenatural dos pássaros, imputável, entre outros, ao mistério da sua intervenção tanto no filme quanto na composição de Patti Smith; sua multiplicidade; e por fim, a aparência - que eu via como sendo tanto fascinante quanto maléfica - daquela nuvem de black bouquet (buquê preto), para citar a metáfora maravilhosa e poética de Patti Smith no seu texto, aquelas braçadas de flores venenosas negro ébano, cujas pétalas invadiam o céu de forma descontrolada.
 
Na obra de Hitchcock, os pássaros revelaram-se maléficos, pois eram ameaçadores e assassinos. No simbolismo do filme, os corvos descem e se abatem principalmente sobre um símbolo: a mulher e suas diversas encarnações.
Nelas, eu via as diferentes facetas daquela mulher torturada - “Tortured woman” - a qual Smith se refere no seu poema.

Primeiro, por meio do personagem de Melanie Daniels (interpretado por Tippi Hedren), a mulher em busca de si mesma, que acaba se realizando, antes de tudo, no papel de futura esposa de Mitch Brenner (interpretado Rod Taylor), em seguida, no papel da filha carinhosa e dedicada – adotada por Lydia Brenner, mãe de Mitch (interpretada por Jessica Tandy), e finalmente enquanto irmã – de Cathy Brenner, irmã mais nova de Mitch (interpretada por Veronica Cartwright) – que Melanie protege e guia pelo caminho da puberdade. Ao imaginar fantasias em volta do par de inseparáveis (os pássaros) com a qual Melanie – a instigadora – a presenteou, Cathy Brenner, a virgem adolescente vive um despertar dos sentidos.

Teria que esperar até os meados dos anos 2000, ou seja, cerca de 25 anos, antes de poder compreender plenamente a letra de Birdland com um simples clique na internet.

No entanto, conforme o tempo ia passando, eu ficava a cada vez mais fascinado e intrigado por aquela composição.
Assim, tinha adquirido o hábito de perguntar para as pessoas que encontrava do que exatamente falava a música. Quem entendia inglês muito melhor que eu revelou, depois de escutá-la, que Birdland contava a história de um menino que estava à procura do seu pai falecido e estava sendo ajudado na sua busca por uma revoada de corvos - o todo, sob a égide de uma misteriosa nave espacial alienígena, escura como a noite, a bordo da qual se encontrava seu progenitor, uma espécie de “Deus in machina” que manipulava os cordéis da história, por assim dizer.
Foi aquela confirmação da importância do papel dos pássaros em Birdland que associou na minha mente a composição de Patti Smith ao filme de Hitchcock Os Pássaros (The Birds, que conhecia de cor e que idolatrava incondicionalmente desde sempre) numa espécie de estalo definitivo e indissolúvel.
Daí em diante, nunca mais pude assistir Os Pássaros sem pensar em Birdland. E nunca mais pude ouvir Birdland sem pensar nos corvos pretos de Hitchcock empoleirados no brinquedo de parquinho, prestes a ensombrar o céu com seu turbilhão nefasto. Os pássaros pretos da poetisa punk-rock nova-iorquina e aqueles do britânico, mestre do suspense, tinham se encontrado, em núpcias sinergéticas, simbióticas e furiosas.
Apesar do fato que, na época, não tinha sequer um elemento racional que vinha sustentar tal associação, sentia, no entanto, que aqueles dois universos possuíam conexões ocultas, embora estas, na sua maioria, ainda fugiam do meu entendimento. E, além dos pássaros, as duas obras tinham, de qualquer forma, dois denominadores comuns flagrantes: a singularidade específica à obra-prima e a potência.

Birdland voltou para o meu toca-discos e, em seguida, para o meu aparelho de CD inúmeras vezes desde 1975. Quando tive acesso ao texto de origem por meio daquela pítia eletrônica dos tempos modernos que é a Web, as opacidades em torno de Birdland finalmente se dissiparam. A história do menino da composição tinha sido inspirada na narrativa de Peter Reich e do seu pai, o tão polêmico psicanalista e ainda mais polêmico pesquisador e cientista Wilhelm Reich.

Mas, no entanto, na minha mente, e sob essa nova luz, os pássaros de Birdland não substituíram aqueles do filme de Hitchcock, como o teria feito uma trilha sonora alternativa, pois os universos das duas criações não exprimiam a violência e o mistério da mesma forma, nem nas mesmas bases.

Hitchcock sintetizava Os Pássaros em uma parábola sobre a autossatisfação confortável, despreocupada e egoísta dos seres humanos que se encontram desamparados quando chega a tempestade.

Na obra de Smith, o discurso é diferente.