L'Homme de Brasilia
Vinílicas sobre tela
113 cm x 200 cm
2010
BRASILIA CINQÜENTA ANOS

Em 2010, eu criei uma tela final para o Cinquentenário da Brasília : «L’Homme de Brasília / O Homem de Brasília» (2010), no contexto da exposição «Brasília. De Carne e Alma» apresantando meu trabalho sobre a capital do Brazil, na Galeria Rubem Valentim, uma das principais galerias do Espaço Cultural Renato Russo 508 Sul, em Brasília.
Eu quis, de certa maneira, dizer adeus à cidade, evocando o maravilhoso filme de Philippe de Broca «L’Homme de Rio» («O Homem do Rio»).

É uma obra que me impactou muito, ela foi determinante no fascínio que a cidade suscitou em mim.

A visão que Broca nos deixou, visão única e, ao meu ver, eminentemente poética (mesmo se o ritmo agitado do filme, as peripécias e os seus desfechos, o humor e a energia « 100 000 volts » do personagem de Adrien, interpretado por Jean-Paul Belmondo, parecem constantemente prevalecer sobre o distanciamento sonhador que inspiram as magníficas imagens da cidade – que, no momento da filmagem, só tinha dois ou três anos de existência e ainda era um canteiro de obras à céu aberto), essa visão, então, me inspirou esta tela, na qual Adrien-Belmondo corre e corre e corre ainda e sempre através desse esboço de cidade, esse traçado desencarnado e poeirento de Brasília que se ergue na terra vermelha do
Cerrado.

Queria mostrar um homem que corre, que deixa a cidade, exprimindo assim o termo deste trabalho sobre a capital do Brasil.

E me dei conta, enquanto pintava, de que afinal não sabíamos se esse homem
que corria fugia da cidade ou se ia em direção a ela.

E vi nisto uma última mensagem de Brasília, que pediria emprestada para a circunstância as palavras de conclusão de «Paprika Plains», a extraordinária sinfonia jazz-rock de Joni Mitchell onde a musicista que fez com que eu me tornasse pintor evocava a terra vermelha das mesas da América do Norte e o desespero dos Indígenas expulsos das suas terras (como Niemeyer evocou no seu tempo a poeira vermelha do Cerrado e o desespero dos Candangos expulsos da cidade depois de tê-la construído), um trecho que nunca deixou de me acompanhar na minha percepção do Cerrado e da flor branca de concreto que cresce nele há cinqüenta anos : «Não importa o que faças, volto, flutuando para você, volto para você flutuando».

Percebi, naquele momento, por que tinha feito essa tela, e soube que tinha voltado ao ponto de partida.

E que, mesmo deixando Brasília para outros horizontes, voltaria sempre para ela nos meus sonhos -eternamente.

PAPRIKA PLAINS