A Ausência (The Absence) 1907 - Manhã - Tarde - 2012
Vinílicas sobre tela
2013
A AUSÊNCIA (THE ABSENCE)

CONTEXTO

No final do ano de 2012, eu ouvia quase que exclusivamente o album «The Absence» da musicista e cantora de jazz Melody Gardot. É a trilha sonora que marcou, para mim, o contexto do desaparecimento de Oscar Niemeyer.
Com exceção do dia em que Oscar Niemeyer disse adeus a este mundo, quando eu escutava «Nenia» do jazzman e trompetista italiano Paolo Fresu.
Raramente uma música se encaixou tão perfeitamente no seu momento.

A morte de Oscar Niemeyer criou em mim um políptico.
A música de Gardot foi o pano de fundo para esta criação.


Foi provavelmente por coincidência que Gardot tingiu as composições do seu álbum «The Absence» com as cores do Brasil e de Portugal. Foi provavelmente por coincidência que eu escutava «Lisboa» quando a inspiração para as pinturas em homenagem ao desaparecimento de Niemeyer tomou o meu espirito. É provavelmente coincidência que «Lisboa» seja uma canção de amor para a capital do país que lançou suas naus ao Novo Mundo, chegando ao litoral do Brasil, cuja capital seria Brasília. É provavelmente coincidência que esta canção de amor para a capital de Portugal tenha criado uma canção de amor feita de cores e de pintura, endereçada a capital do Brasil e ao seu arquiteto. É provavelmente coincidência que «Lisboa» comece com o som dos sinos de uma igreja - uma Catedral?… Finalmente, foi provavelmente por coincidência que a última pincelada dada em «The Absence (A Ausência)» tenha sido feita ao som das últimas palavras de «Iemanjá», a faixa final de «The Absence» da Melody Gardot:
«I wanted to stay, I gotta go, but I’m coming back one day / Eu queria ficar aqui, eu tenho que ir, mas eu vou voltar um dia».

Eu não sei se Oscar Niemeyer voltará um dia.
Para voltar, é necessário partir. Olhe para a sua obra.
Ele nunca nos deixou

Jacques Benoit

« A AUSÊNCIA (THE ABSENCE)»

Trecho do texto que acompanha o políptico «A Ausência (The Absence)» no catálogo da exposição«Brasília. Meio Século da Capital do Brasil »

Brasília ficou órfã duas vezes: quando a deixou Juscelino Kubitschek e, mais tarde, Lúcio Costa. Agora, em 2012, antes do Natal, dez dias antes de completar 105 anos, o arquiteto do sorriso de criança triste também deixou a cidade para sempre. Os anjos de Ceschiatti choram na catedral.

Na parede do seu estúdio em Copacabana, ele havia escrito, com aquela caligrafia que era um desenho, tornando-se arte quando ele tocava o lápis: «O mais importante não é a arquitetura, mas a vida». A vida nos traz amizade e amor. Disse ainda: «Eu não faço a arquitetura que esperam de mim, eu faço a arquitetura que eu gosto». Pior para aqueles que não gostam - quem se importa? Bela lição.

Hoje, de todas essas telas, desses momentos que passei pintando Brasília, o que posso ter aprendido, senão concordar com o arquiteto com o sorriso de criança triste? A vida é mais importante do que a arquitetura, e mais importante do que a pintura, claro.

Quanto a você, Senhor Arquiteto, quando você nos deixou, eu fiz como os anjos da sua catedral no coração do Brasil. E hoje, eu acho que você continua aqui, neste novo trabalho, mesmo que não o possamos ver. Sim, claro, você está aqui. Eu acredito, de fato, que você partiu somente em viagem, uma grande viagem sem fim em direção à Alvorada.

Assim, quando penso em você, não penso na sua partida.
Apenas na sua ausência.

Jacques Benoit

Melody Gardot
« Lisboa »
Paolo Fresu
« Nenia"